Harikan e a Preguiça

Por Jivamuktananda Saraswati

Harikan era um monge estudioso, disciplinado em encontrar através de seus estudos resoluções para suas dúvidas e inquietações internas. Seu progresso até então era notável, mesmo com tantas inquietações, conseguia através de sua disciplina dissipar grande parte de suas dúvidas, embora para ele parecia nunca bastar dissipar o número que fosse de dúvidas para encontrar alguma paz, pois sempre novas incertezas surgiam.

Houve uma noite em que Harikan teve um sonho:

Harikan estava dentro de uma casa em chamas rodeado de pequenos seres demoníacos, os pequeninos beliscavam as pantorrilhas de Harikan enquanto corriam e riam em tom de deboche em volta do monge.
Irando-se, Harikan cortou-lhes em pedaços apenas com a força do seu próprio pensamento. No mesmo passo em que os corpos dos demônios caiam em pedaços ao chão, eles ressurgiam rindo e debochando do monge.
Harikan com a força de seu pensamento os espancou, afogou, pisoteou, retalhou, fez virar pó os corpos das criaturas que continuavam a se reconstituir.
Harikan sabia que as pequenas criaturas não podiam de fato feri-lo, mas sabiam e muito bem perturbá-lo.
Irritado, o monge saiu da casa na tentativa de despistar as petulantes criaturas.
Enquanto Harikan saia da casa, notou ao longe um outro demônio, mas este era diferente dos outros.
O demônio estava parado, fitando o monge de longe com uma expressão fria e aguda de maldade, o que era muito diferente dos outros pequeninos de expressão debochada de risonha malícia.
Harikan estremeceu e sentiu que aquela criatura ele devia temer, pois esta sim possuía a força necessária para ameaçar a sua vida.

De súbito, Harikan apareceu em outro lugar e agora estava sendo perturbado por uma mulher de aspecto repulsivo. A mulher, que o monge deduziu ser também um demônio, se debruçava por cima do monge e o agarrava na tentativa de roubar um beijo. Harikan, já muito perturbado, gritou em alto tom: "Por que eu não consigo apartar vocês de mim!? se eu tenho força para cortá-los, pisoteá-los, torná-los em pó!?"

A mulher, expressando surpresa e perdendo toda sua voluptuosidade ficou em silêncio e em seguida respondeu em tom de voz ameno: "Só os puros possuem a capacidade de matar os demônios." Harikan, ouvindo a resposta sentiu uma tranquilidade que nunca antes havia experimentado. A mulher, sorrindo e com o semblante tranquilo despediu-se de Harikan dizendo "Obrigado".

De súbito Harikan se viu frente-à-frente ao demônio de aspecto amedrontador que antes havia entrevisto ao longe. Dirigindo-se a Harikan, o demônio proclamou: "eu te desafio."
Mas o monge, sem pensar, respondeu: "Eu já te venci."
Arregalando os olhos e pela primeira vez colocando alguma expressão em seu rosto o demônio se dissipou como miragem no ar.

Novamente de súbito, Harikan se viu em outro lugar, viu ao longe dois cavalos ferozes galopando em sua direção. Julgando compreender o sentido do que havia experimentado anteriormente o monge colocou-se a afirmar para si enquanto via os cavalos se aproximando: "Vocês têm existência dentro de mim apenas, vocês dependem de mim para existir, sou eu quem alimento vocês e agora eu decido deixar de alimentá-los." Mas os cavalos continuavam ferozes galopando em sua direção... E os cavalos foram se aproximando, quando eles estavam prestes à atropelar o monge, sucumbindo ao medo Harikan se atirou para o lado esquivando-se dos cavalos.

Com o golpe de sua queda Harikan acorda e se vê deitado em sua cama. Recordando do sonho e compreendendo o seu sentido o monge, rindo, disse para si mesmo: "Que ironia! Eu sou mesmo um preguiçoso!"



"A Preguiça traz em si a semente da falha,
É a mãe da dúvida casada com o medo da perda.
A Vontade traz em si a semente da vitória,
É a mãe da coragem casada com a fé."
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